Já que comecei, agora sigo em frente com a hemorragia verborrágica. É assim: tenho de aproveitar quando consigo sentar a buzanfa na cadeira e pensar em assuntos para dissertar neste espaço às moscas.
Pode ser que eu já tenha escrito sobre isso, mas, quando minha mãe morreu (há quase um ano – nossa, como o tempo passa bizarramente rápido!), descobri esse clube no qual ninguém pede pra ser membro. É o que eu chamo de clube do ‘eu sei o que você está passando’. Quando você perde alguém muito próximo que você ama demais, você vira membro honorário. Quando coisas assim acontecem com gente ao seu redor, você pode se identificar dizendo ‘eu sei o que você está passando’. E você realmente sabe o que é. A pessoa vai agradecer e vai passar isso adiante. Porque, embora cada um sinta esse tipo de dor de forma diferente, a situação acaba sendo extremamente deprimente pra todo mundo. E na depressão todo mundo tem mesmo de dar a mão e se ajudar.
Vendo ‘Trilhas Sonoras de Amor Perdidas’, foi exatamente nisso que pensei. Ao ver o protagonista, minha vontade era sacar a carteirinha do clube. As pessoas falam isso para as outras mais para dizer: eu sei o que você está passando e o mundo não acabou. Porque é essa a sensação que você tem. De repente, não há mais nada o que fazer além de chorar. E, sinceramente, eu tinha dificuldades de imaginar como minha vida ficaria sem minha mãe. E mudou tudo, não há dúvidas. Ainda estou me adaptando à nova função que tenho na vida do meu pai, me adaptando ao amadurecimento forçado ao longo desses meses, à falta fudida que sinto dela, em geral.
Mas eu queria falar da peça.
Bem, basicamente, fiquei incrivelmente deprimida por que a história toca duas partes sensíveis em mim. Três, vai: amor, morte e cultura. É uma peça sobre esses três temas, basicamente, então não tinha como eu não me identificar. Sim, o protagonista fala demais pro meu gosto. Não sei se seria grande amiga dele, porque chega uma hora que enche o saco o cara citar uma música a cada frase e situação que ocorra. Mas não consigo evitar essa ligação carinhosa não somente por ele ser um Rob Fleming sem ter esse nome em seus cartões de visita, mas por ele pertencer a esse clube dos corações tristes o qual mencionei anteriormente. Além disso, ele ama intensamente até a ideia de amar, além de amar intensamente os filmes e as músicas.
E as FITAS. Nossa, como eu amava fitas. Não tinha download nem nada na época das fitas, a gente grava CDs das amigas, gravava músicas do rádio e ficava feliz. ‘Trilhas Sonoras de Amor Perdidas’ é cansativo, mas é tão cheio de paixão e de dor que é impossível não se sentir nocauteado, pensando nas últimas três horas com certa atenção, pelo menos.